Manifesto

Pombos. A esplanada da Gulbenkian e as histórias que por ali se ouvem, como elas nos constroem e desconstroem a alma. Intelectuais, intelectualóides, hipsters e azeiteiros, não necessariamente por esta ordem. O sol de inverno, aquela luz fria algures entre o branco e o amarelo,  as pedras sujas. A calçada irregular (e irregular é eufemizar) do Bairro Alto, que desfaz sem piedade qualquer par de ténis comprado por 15€ numa qualquer loja da moda do Chiado. As igrejas. As igrejas que, paradas, circulam pela cidade inteira, surgem discretas e entaladas entre cabeleireiros e mini mercados. Os escritórios e os seus pobres fumadores, à porta, largando fumo interrompido por palavras, ou palavras interrompidas pelo fumo, vá se lá saber: os fumadores, com os seus cigarros e as suas palavras, são as zebras de riscas polémicas desta cidade. Velhotas e bebés, carinho inter-geracional e contra-cosmopolita.  A Nova Iorque do Woody Allen acocorada em cada canto, beijando a Barcelona de Gaudí e definindo a cidade em termos de outras. Lisboa é a intersecção tosca destas duas cidades, a imperfeição de uma elevada à contradicção da outra e debruçada sobre o Tejo, a devolver um resultado inesperado para quase todos e doce para a maioria. As sombras calculistas e no entanto estranhamente criativas. Proporcionais ao tamanho dos objectos, obedecendo às leis da física mas com qualquer coisa de errado, qualquer coisa que não se consegue dizer o quê. O culto do errado, do diabo. Lisboa politicamente incorrecta, insana. Lisboa dos prefixos. Lisboa que, injusta, acorrenta alguns malucos no Júlio de Matos e deixa os outros todos à solta, cambada de loucos não oficializados, optimistas cépticos. Lisboa do Jorge Palma e Lisboa na palma da mão. É a loucura que se deixa perceber nas sombras, agora percebo. E a loucura, pelo menos a de Lisboa, não obedece às leis da física. Lisboa trans. Transgénica, transsexual e transportada de outra dimensão. Lisboa do Pessoa, que afinal é a Lisboa de todos nós. Foi esse o grande mérito de Pessoa, mostrar às pessoas de Lisboa a Lisboa das pessoas, a Lisboa que ele encontrou no espaço vectorial das metáforas que absorvia do Martinho da Arcada, do largo de São Carlos, da Rua Nova do Almada. Lisboa cíclica, autómata e re-. Re- tudo. Renovada, revelhada, refeita e redesfeita. Lisboa que inventa palavras e as infiltra nas nossas mentes, que obriga os transeuntes a dobrar a semântica e a partir a sintaxe para a descrever. Subidas íngremes, gémeos tonificados, varizes. Lisboa das varizes, do suor tóxico. Lisboa animal, grotesca, devoradora, cansativa, tumultuosa. Lisboa das avenidas e dos parques subterrâneos, antros de vazio subconsciente que a pouco e pouco, nos obrigam a dizer baboseiras, a escrever baboseiras. Lisboa das palavras engraçadas. Baboseira. Baboseira. Baboseira não é Lisboa nem Lisboa é baboseira, Lisboa é estupidez num estado mais puro, mais saudável. Sim, sim, gosto da definição. Lisboa é estupidez saudável. Soa bem. Lisboa soa sempre bem. Nunca nos sentimos deslocados dentro da cidade,  o som de fundo de Lisboa é uma lareira quente e confortável e familiar, é o colo da nossa mãe sempre. Lisboa é a nossa mãe. Lisboa é a nossa mãe e é o nosso pai também. É a família incondicional que está cá para nós, sempre esteve, sempre estará. Lisboa é o Diabo. E nós, sinceros e humildes loucos, somos os seus filhos. Nós somos os Filhos do Diabo.

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